Na minha infância, puberdade e adolescência tive 3 grandes amigas.
A primeira era neta da minha vizinha do R/C. Era rica, tinha tudo porque o pai comprava-lhe tudo nas suas idas ao estrangeiro, tinha "n" barbies, nenucos, etc… coisas que na altura muito poucas miúdas tinham porque eram muito caras e eu não era excepção, por isso adorava ir para a casa da avó brincar com ela. Tinha pena que não ter o que ela tinha, mas não me chateava. Aceitava bem o facto de não poder ter certas coisas, porque percebia a diferença entre rico e pobre. A minha mãe era sozinha e trabalhava em casa, por isso nunca teve posses, mas do essencial nada me faltou. Éramos grandes amigas, passávamos tardes inteiras a brincar, lanchava com ela, belos lanches que a avó nos preparava… mas ela, filha única, era egoísta e às vezes insuportável, porque dizia que podia ter tudo o que quisesse, e que conhecia muita gente, porque o pai era importante e viajado. No começo da maluquice dos ídolos, e na altura era o Don Johnson (Miami Vice), eu adorava-o e como ela comprava as Bravos, deu-me um poster dele. Eu fiquei louca de alegria e fui pô-lo logo na parede do meu quarto. Passado não-sei-quanto-tempo, bateu-me à porta e sem mais, foi ao meu quarto e levou-me o poster. Fiquei furiosa com ela, desiludida, não entendia porque ela tinha feito aquilo e porque não se faz, tinha sido um presente. Simplesmente “porque tinha começado a gostar dele”. Deixei de lhe falar. E ela nunca pediu desculpas e aceitou a nossa separação.
Hoje, é assistente social, mora em Lisboa e está grávida pela 1ª vez. Ela, que sempre me dizia que nunca iria namorar…
A segunda era minha vizinha do outro lado da rua e começámos a ser amigas quando fomos para o ciclo. As nossas mães eram conhecidas e ao saberem que tínhamos ficado juntas na mesma turma, decidiram juntar-nos. Fomos as melhores amigas até à Universidade. E sempre na mesma turma. Passámos o tempo todo juntas, íamos a todo o lado juntas. Mas nas horas de estudar, ela desaparecia do mapa. Era muito marrona, tirava as melhores notas da turma e queria sempre mais. Não admitia que ninguém lhe passasse à frente. Nem eu. E mais uma vez era filha única, egoísta até dizer chega, individualista, os pais trabalhavam os dois e ela fazia tudo em casa e passava muito tempo sozinha. Vivia no seu mundo. Quando eu faltava à escola, era a muito custo que ela me emprestava os cadernos para eu copiar as aulas. Nunca me deixava copiar nos testes, nunca me ajudava. Zangámo-nos muitas vezes, porque eu não compreendia porque é que ela era assim, se éramos amigas. Lembro-me de irmos para o liceu a pé, ela sempre uns quantos metros à minha frente, quando estávamos de relações curtadas. Mas eu, a totó de serviço, a generosa, sempre a ajudei em tudo. Fui muito mais amiga que ela. Na Universidade também entrou para o meu curso e mais uma vez para a minha turma. Eu não queria. Sentia necessidade de me libertar dela. Porque ela não era boa para mim, porque sempre vivi na sombra dela, porque até com os amores (platónicos, sempre), ela definia barreiras (o que é meu não é teu).
e a tarde e más horas me apercebi de tudo isso. E foi num trabalho da universidade que as coisas azedaram mesmo. O cúmulo do seu egoísmo atingiu o pico e cortei-lhe as vazas. Acabou-se. Nem com os pedidos quase de joelhos da mãe dela me fizeram mudar de ideias. Para mim chegava. E acredito que comecei a ser mais feliz a partir daí.
Hoje ela ainda é solteira e sem filhos, no mesmo trabalho há mais de 10 anos.
A terceira, também era minha vizinha, mais ao fim da rua e também passava longas tardes na casa dela e ela na minha. De todas, era a mais fixe, a mais generosa, a menos egoísta, a mais verdadeira e mais querida. Fomos mesmo muito amigas. Ela era pequenina e magrinha, mas muito mais decidida e exigente do que eu. Aprendemos muito uma com a outra. Fomos unha e carne durante muito tempo. Durante o dia e durante a noite, nas nossas saídas. Confidentes e manas autenticas. E era a família que eu mais gostava. Humildes, simpáticos, acolhedores, sempre de braços abertos para mim. A amizade também se rompeu com a mais estúpida das 3. Por um equivoco, por uma frase inacabada ou mal dita, ferida e precipitada. Fiquei muito sentida e esperei durante muito tempo o seu pedido de desculpas. Acho que até hoje.
Hoje ela é casada, mãe de um menino e entretanto soube que perdeu um bebé. Um dia encontrámo-nos por acaso com os respectivos filhos e tive vontade de lhe perguntar porquê, se tínhamos uma amizade tão bonita e pura, mas a vida é assim mesmo. Desisti de fazer perguntas que não têm resposta. Ao que soube a seguir, ela também se fez a mesma pergunta. Também esperou que eu desse o primeiro passo. O orgulho é dos piores defeitos que uma pessoa pode ter, no sentido egoísta da palavra, porque mata!
Às vezes reuníamo-nos as 3 e acabávamos por nos separar, porque não conseguíamos estar todas juntas no mesmo espaço. Queriam todas ter protagonismo, e havia muitos ciúmes. Geralmente acabávamos por ficar eu e a terceira amiga. As outras raramente queriam dividir o espaço. Eu tinha de ser só delas, mas uma de cada vez. Todas elas me ensinaram coisas sobre a vida, sobre as coisas. E apesar de nos termos separado, recordo-as com ternura, porque apesar de tudo, fizeram parte da minha história. Vivo com saudades desses tempos, tempos de ingenuidade, de total dedicação, do “dolce farniente”, de quando acreditava que tudo era possível.
Só desejo que os meus filhos tenham bons amigos, não precisam de ser muitos, mas bons, daqueles que se pode contar sempre com eles, para o bem e para o mal e que os acompanhem pela sua vida fora, de preferencia sem quebras, porque ter amigos de infancia aos 30/40 anos é bonito de se ver e reconfortante de se ter. E era isso que eu gostava que os meus tivessem, já que eu não tive. (ou tive e perdi).
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